
"Há um ano, no mesmo circuito de Monza, onde no próximo domingo disputa o GP da Itália, Fernando Alonso deu início a uma incrível recuperação no Mundial de F-1.
Veja o especial sobre F-1
Ben Stansall/France Presse
Alonso comemora vitória em Silverstone, ano passado
Com três vitórias em quatro provas, ficou muito perto de conquistar seu terceiro campeonato em sua temporada de estreia na Ferrari.
Neste ano, porém, sua situação é mais complicada. Com 102 pontos a menos que Sebastian Vettel, admite que ser campeão em 2011 não é realista. "Em condições normais não temos como recuperar essa desvantagem", disse à Folha durante uma longa entrevista, no final de semana no GP da Bélgica, na qual se mostrou relaxado e elogiou bastante o escudeiro, Felipe Massa.
Confira a íntegra da entrevista:
Folha - Michael Schumacher completou 20 anos de F-1 em Spa. O que acha dele?
Fernando Alonso - Tenho grande respeito por ele, é o maior. Se olharmos os números dele na F-1, ele merece o respeito de todos. Michael conquistou muitas coisas que para a maioria de nós pilotos vai ser impossível de repetir. Ainda hoje, mesmo se os resultados não são os que ele quer, ele se diverte. Na minha opinião, quando ele resolveu voltar para a F-1 foi porque ele sentia falta disso em casa. Para nós é muito difícil conseguir a adrenalina, as emoções que temos aqui em outro lugar. Mesmo que hoje ele seja quinto ou décimo, está feliz. As pessoas não entendem isso em casa, mas tenho certeza de que ele acorda feliz todos os dias. Temos que ter orgulho de dividir a pista com o Schumacher.
Acha que é bom para a F-1 ele estar de volta?
Sim, para todos os pilotos o fato de ele estar na pista dá mais valor ao que fazemos. Estamos correndo contra o melhor. Se o companheiro de time dele estivesse vencendo corridas ou o campeonato faria mais sentido ele ser criticado. O carro da Mercedes não está bom no momento, falta competitividade. Se ele estivesse num carro mais competitivo certamente estaria lutando por vitórias.
Você já disse que não se vê correndo por tanto tempo como ele. Não vai sentir falta da adrenalina também?
Certamente. Para mim é difícil pensar em ficar na F-1 por 20 anos. Estreei em 2001, o que significa que em 2021 eu estaria aqui ainda [risos]. É difícil me ver em Spa daqui a dez anos. A F-1 requer muito trabalho físico e mental e suga sua vida. Você trabalha praticamente 365 dias por ano seja se preparando, correndo ou em eventos com patrocinadores.
Você se considera o melhor piloto do grid?
Não. Cada um tem suas características, seus pontos fortes e suas fraquezas. Precisamos tentar entender qual é o ponto fraco de nossos rivais e trabalhar nisso. Com a diferença nos carros é difícil ver a qualidade dos pilotos. Imagino que se pegarmos um piloto que hoje fica em 12º e colocarmos numa Ferrari ou numa Red Bull talvez ele ganhe corridas. Não acho que há um piloto melhor que outro. A experiência, a velocidade, o jeito de trabalhar com os engenheiros e de se preparar para as corridas pode fazer alguma diferença. Mas acho que estamos todos muito nivelados se levarmos em conta apenas o talento. Todos nós vencemos no kart, nas categorias menores e quando chegamos na F-1 escolhemos métodos diferentes de trabalhar. Mas todos nós sabemos como guiar um carro rápido.
O que acha do Nico Rosberg? Ele tem sido mais rápido que o Schumacher constantemente...
Ele tem ido bem nos últimos dois anos ao lado do Michael. Correr ao seu lado sempre é uma ótima referência e ele frequentemente tem vencido. Acho ele muito talentoso e acho que ele será campeão mundial um dia.
O que pode dizer do Flavio Briatore?
É um amigo e a pessoa que mais me ajudou a chegar na F-1. Quando estava na F-3000 ele me ofereceu um contrato com a Renault de cinco anos, sendo que o primeiro seria pela Minardi. Isso não é comum na F-1, alguém que te ajude a chegar confiando apenas na sua capacidade. Serei sempre agradecido por isso. Sinto falta dele no paddock. Ele era ótimo para o show.
Ele serviria para a Ferrari?
Não seria fácil para ele se encaixar na estrutura da equipe como ela é hoje. Mas ao mesmo tempo sempre há lugar para gente inteligente e quer fazer as coisas direito. Por que não?
Como é trabalhar na Ferrari?
É um ótimo mundo que descobri no ano passado. Quando cheguei foi uma surpresa melhor do que imaginava, com toda a história, a atmosfera, as pessoas trabalhando em Maranello. É como uma família mesmo, hoje os filhos dos mecânicos que trabalharam na fábrica no passado estão lá. Foi um sonho que se tornou realidade para mim. A equipe é a melhor para qual já trabalhei, as pessoas são muito profissionais e comprometidas. O que está faltando são as vitórias e os campeonatos. Mas tenho certeza de que em breve estaremos de volta. Isso não virá por acaso, pois o time é construído para vencer.
O time mudou desde que você chegou? Dá para dizer que a Ferrari agora tem a mão de Alonso?
Definitivamente cada pessoa que chega na equipe faz uma diferença. Sou muito trabalhador, determinado a vencer e acho que essa foi a mensagem que o time recebeu quando cheguei. Não há tempo para relaxar. Houve algumas mudanças no organograma da equipe e isso alterou um pouco as coisas. Há um ano e meio a equipe era diferente, mas as mudanças são para o melhor, para sermos mais eficientes. Ao lado do Stefano [Domenicali, chefe da equipe] e do presidente [Luca di] Montezemolo temos que ficar calmos e saber que estamos no caminho certo.
Você teve alguma influência nestas mudanças?
Não exatamente. Mas sempre tento me manter otimista e sou um lutador. Acho que a equipe se surprendeu com isso.
É verdade que seu pai disse que você só teria uma carreira completa se pilotasse para a Ferrari um dia?
Sim. Para mim é como se você jogasse no videogame e não alcançasse a última fase. A Ferrari é mais que uma equipe, é uma lenda.
E quão importante seria ser campeão pela Ferrari?
Muito, muito importante. É algo que quero fazer e enquanto não conseguir não vou sossegar.
E se não conseguir isso até 2016 [quando acaba seu atual contrato]...
2021! [risos]
Você estabeleceu metas quando chegou na equipe?
Não, nenhuma. Sei como é difícil vencer corridas, quanto mais campeonatos. Para vencer precisa de muitos fatores. Mas cada ano estou mais relaxado pois sei que estou na melhor posição para vencer. Talvez a gente perca, como no ano passado, ou como neste, que a Red Bull está muito forte.
Por que acha que eles são tão superiores atualmente?
São muitos fatores. Acho que desde 2009 eles entenderam melhor o regulamento e construíram um grande carro. Certamente Adrian [Newey] é uma peça fundamental, mas por trás dele tenho certeza de que há um grande grupo de trabalho. Para vencer um Mundial você precisa de um grande time e a Red Bull está fazendo um ótimo trabalho.
Sonha em trabalhar ao lado de Newey um dia?
Bom, só se ele quiser vir para a Ferrari [risos]... Meu sonho é ser campeão aqui e sei que é o sonho de muitos mecânicos e engenheiros trabalhar para a Ferrari.
Como descreveria Sebastian Vettel?
É um grande campeão. Já venceu um título e está indo para o segundo depois de um excelente começo de ano. É um grande rival e acho que será também no futuro. Ele é muito talentoso, agora tem a experiência de lutar por títulos sob pressão. Acho que a maior força dele é a velocidade. Sua melhor qualidade é tirar o máximo do carro especialmente em uma volta. Fazer uma pole não é fácil e mesmo que você tenha o melhor carro ainda assim precisa ir para a pista e fazer a volta. É uma qualidade que talvez eu não tenha como ele. Este ano ele está em grande fase. Se não vence está sempre por ali.
Gostaria de tê-lo como companheiro de equipe?
Por que não? Todos os pilotos querem guiar pela Ferrari, mas nem todos dizem. Se um dia tiver um companheiro diferente tudo bem. Mas estou contente ao lado do Felipe [Massa], trabalhamos bem juntos e espero correr ao lado dele por muitos anos. Mas se houver uma dupla diferente tudo bem.
Quando você estava na Renault, Pat Symonds disse que você só tinha uma fraqueza: a incapacidade de lidar com um companheiro que é mais veloz...
No passado talvez fosse verdade. Mas eu mudei. Aprendi com o passar do tempo. De 19 corridas talvez eu fosse mais veloz em 15 e nas outras quatro eu até tentava melhorar, mas não entendia por que era mais lento. Agora começo a temporada sabendo que de 20 corridas talvez eu seja mais rápido em 15 e nas outras tento fazer o melhor e me aproximar de quem está na frente.
E por que na Alemanha no ano passado você reclamou no rádio porque o Felipe estava na sua frente?
Não era bem isso. Sempre temos conversas no rádio, os engenheiros querem saber como está nosso ritmo, quão veloz você pode ir, se está no limite, essas coisas.
Você tem sido mais rápido que o Felipe frequentemente. Não preferia que ele te desse mais trabalho e te forçasse a melhorar? Não, o Felipe não está me dando vida fácil de jeito nenhum. Às vezes pode parecer isso de quem vê de fora, mas estamos muito próximos. De todos os companheiros de time que já tive ele é um dos mais fortes. Se você olhar para os treinos, as classificações e corridas, estamos sempre a um ou dois décimos de distância. Quando é mais que isso é porque alguma coisa aconteceu. Especialmente no ano passado acho que ele teve muito azar em algumas situações com tráfego, acerto de carro. Lembro que em Cingapura ele foi mais rápido que eu o final de semana todo e na classificação ele teve um problema no câmbio que o fez largar em último. Não tem sido tão fácil como parece. Trabalhamos bem juntos e temos um estilo de guiar bem diferente. Sou mais agressivo nas entradas de curvas, ele é mais cauteloso na entrada mas vai muito bem nas saídas, então é bom poder comparar nossas telemetrias. Somos complementares no estilo de guiar. Trabalhando juntos nós dois melhoramos durante o final de semana, o que é uma coisa boa.
Como vê o campeonato de 2011?
É simples. Estamos numa situação complicada. Temos que ser realistas e saber que em condições normais não temos como recuperar esta desvantagem na segunda metade do ano. Talvez com erros ou em situações malucas a gente consiga se aproximar. Mas não está em nossas mãos. Vamos agora pensar corrida após corrida. Se tivesse que apostar em alguém para ficar com o título seria o Sebastian.
O que ficou do final de semana de Abu Dhabi em 2010?
Foi um final de semana triste, perdi a chance de vencer o campeonato. Quando está tão perto e não consegue é muito frustrante, mas isso ficou no passado e não há nada que eu possa fazer agora. Se pudesse repetir aquele final de semana faria coisas diferentes. Cheguei numa posição que talvez não fosse a real porque nossos concorrentes erraram muito, tiveram falhas mecânicas, como o Sebastian na Coreia.
Ainda tem raiva do Vitaly Petrov?
Não tenho raiva, mas acho que o comportamento dele não foi dos mais inteligentes. Não que ele tenha feito de propósito, mas eu tentei passar duas vezes, ele defendeu a posição. Não me irritei porque era a corrida que iria definir o campeonato. Se ele tivesse feito aquilo em Nurburgring daria na mesma para mim. Mas cada um se comporta como quer. Conhecemos os pilotos e sabemos quais são os mais fáceis ou difíceis de passar, quais são leais e quais não são.
Você disse que faria coisas diferentes naquele final de semana. O que seriam?
Eu acho que nosso erro foi não tentar cobrir o Sebastian. O [Mark] Webber, que era o segundo no campeonato, foi para os pits e nós tentamos cobri-lo. Saí na frente, mas nossos pneus acabaram muito antes do que pensávamos. Com o Sebastian liderando a corrida o mais certo seria termos nos focado nele e esquecido do Webber.
Demorou para a frustração passar?
Não muito. Voei para casa na segunda e na quinta já testamos os pneus de 2011. Ali já virei a chavinha para este ano. Graças àquele teste foi mais fácil esquecer porque imediatamente me concentrei em 2011. Se eu tivesse ficado dois meses em casa talvez tivesse sido mais difícil de esquecer.
Como pode ter certeza que em 2012 você vai começar o ano já lutando pelo título?
Eu confio na equipe, sei que estão trabalhando para construir um carro vencedor desde já, temos novos membros em posições importantes e não tenho nenhuma dúvida de que teremos um carro competitivo no ano que vem. Se tiver que dizer quem estará lutando pelo título em 2012 eu aposto na Ferrari."