Jacques fala sobre Gilles e o orgulho que sente do pai


“A paixão de meu pai era visível em sua pilotagem”, diz Jacques

Filho de Gilles Villeneuve acredita que seu pai seria campeão mundial caso não se acidentasse

Bruno Ferreira, de São Paulo

No início de 1982, Jacques Joseph Charles Villeneuve era um garoto de 11 anos de idade que vivia sua infância no principado de Mônaco, onde era criado por sua família. O menino também frequentava autódromos para acompanhar seu pai, Gilles Villeneuve, que era um dos principais pilotos da F1 da época e um favoritos ao título daquela temporada.

No dia 8 de maio, durante o treino classificatório para o GP da Bélgica, o então piloto da Ferrari sofreu um acidente que lhe custou a vida. E Jacques foi um dos que mais foram afetados com a tragédia.

Anos mais tarde, o garoto cresceu, virou piloto e conquistou o título mundial de F1 que faltou ao seu pai, em 1997. Contudo, para se estabelecer no automobilismo, precisou lidar com as comparações que o ligavam ao arrojado e destemido piloto que conquistou uma legião de fãs nas décadas anteriores, em especial na Itália, onde os tifosi passaram a ver em Gilles uma inspiração.

Em um artigo escrito para a revista inglesa “F1 Racing”, em janeiro de 2012, o canadense revelou que seu pai, através de seu estilo de pilotagem e de vida, o ensinou a ter paixão por aquilo que faz.

“O que as pessoas amam em meu pai é que ele vivia sua paixão – e era possível ver isso em sua pilotagem. Não havia meio termo com ele: sempre procurava pela volta perfeita, pela curva especial, pela deslizada suprema... Ele queria ser melhor que os outros em tudo. Era assim que ele era na pista, era assim que ele era na vida”, avaliou Jacques.

“O legado de meu pai é ‘viva para o seu sonho’. Ele vivia com paixão, com aquela chama. Ele correu pela Ferrari e passou a ser parte da família – e ele nem italiano era. Acho isso incrível. Provavelmente, esta é a razão pela qual o povo italiano sempre foi incrível comigo – mesmo quando eu lutava contra Michael Schumacher, da Ferrari, pelo título de 1997.”

“Ele sempre foi um piloto que preferia vencer em vez de ficar em terceiro. Talvez este tenha sido o aspecto de sua personalidade que o fez perder o título para Jody Scheckter, em 1979.”

Jacques, sobre Dijon-1979: “Fico maravilhado quando vejo as últimas voltas daquela corrida” 

Anos mais tarde, Jacques Villeneuve passou a compreender melhor a importância do nome de seu pai para a história do automobilismo. O estilo destemido de Gilles proporcionou momentos que são usados até hoje como exemplos de disputas acirradas, com pilotos levando suas máquinas ao limite.

Para o filho, as últimas voltas do GP da França de 1979, no circuito de Dijon, simbolizam toda a filosofia de vida de Gilles. Após travar uma batalha ferrenha contra René Arnoux, da Renault, Villeneuve cruzou a linha de chegada em segundo, vencendo uma das batalhas mais famosas da história da F1.

“Hoje em dia, é possível ver na internet uma enorme quantidade de vídeos antigos da F1. Mas não havia internet quando eu estava crescendo, então eu nunca vi muitos momentos da carreira de meu pai. Claro que vi o vídeo de Dijon, em 1979, porque é algo do qual todos falam. E fico maravilhado até hoje quando vejo as últimas voltas daquela corrida”, admitiu.

“Foram dois pilotos indo para cima, com espirituosidade e não cedendo nem um pouco. Mas também havia muito respeito entre eles. Quando nos damos conta do quão próximos meu pai e Arnoux estavam na pista [principalmente levando em conta que o carro era muito potente e escorregava muito], concluimos que isso não seria possível hoje em dia.”

“O que aconteceu em Dijon é simbólico em uma época em que meu pai e Arnoux foram criticados por causa do perigo – mas é disso que se tratam as corridas. Aquilo sempre será um dos maiores momentos de ação na F1, e, quando penso que meu pai estava envolvido, fico muito orgulhoso.”


“Nunca quis imitar meu pai como piloto”, avalia o campeão de 1997 

Já crescido, Jacques Villeneuve optou por seguir os passos de seu pai e iniciou a carreira de piloto. O ocorrido com seu pai, anos antes, não foi um fator complicador para a escolha.

“Sempre me perguntavam qual tinha sido a reação de minha família quando decidi virar piloto. Nunca houve nenhuma rejeição a isso, porque nunca considerei seriamente seguir outra carreira. Não foi uma surpresa.”

No entanto, Villeneuve não nega que teve de lidar com comparações durante boa parte de sua carreira - apesar de o próprio piloto não ter se sentido pressionado com a questão.

“Ter um sobrenome famoso na deixa as coisas mais fáceis e mais difíceis. Por exemplo, era mais fácil conseguir patrocínio, mas a pressão era mais direta. Se você for bom, isso te ajuda, mas, se for mediano, te destrói. Felizmente, consegui fazer com que isso trabalhasse em meu favor”, considerou.

“Quando comecei a crescer no automobilismo, muitas pessoas citavam o meu sobrenome. Mas nunca dei muita atenção a isso. Por causa da carreira de meu pai, cresci em um ambiente de corridas, então, para mim, era apenas uma extensão disso. Lembro que eu chamava muita atenção independente do que eu fizesse, o que me obrigou a aprender a lidar com a pressão desde muito jovem.”

“Quando cheguei à F1, as conversas cobre o sobrenome cresceram. As pessoas queriam saber como minha carreira se desenrolaria. Cheguei após vencer as 500 Milhas de Indianápolis, o que me deu credibilidade, mas, ao mesmo tempo, me deixou mais em evidência. Eu tinha muita atenção, o que não me irritava”, admitiu.


“O que me irritava era quando jornalistas me perguntavam sobre isso – mas ninguém me perguntava coisas reais. Parecia que queriam ver a continuação de Gilles Villeneuve e já tinham as respostas que queriam ouvir. Eles ficavam bravos quando eu não respondia o que eles queriam. Meu pai era conhecido como um piloto empolgante, então uma das coisas que as pessoas queriam ver era que eu fosse igual a ele na pista.”

Assim, apesar da pressão externa, Jacques nunca tentou copiar o estilo de pilotagem de Gilles.

“Quando eu crescia, aprendi me esforçar, a tentar ser o melhor, a alcançar coisas que ninguém conseguiu. Nunca quis imitar meu pai, nunca senti nenhuma responsabilidade por ter que guiar de tal maneira a continuar a tradição familiar. Evitei essas questões quando cheguei à F1 porque isso não tinha sentido para mim.”

“Era questão de tempo para que meu pai se sagrasse campeão”, diz

Em 2004, 12 anos após a tragédia em Zolder, Jacques Villeneuve teve a primeira oportunidade de guiar um carro com o qual seu pai competiu na F1. Foi no festival de Goodwood, na Inglaterra, quando o piloto acelerou a Ferrari 312T3, utilizada em 1978.

“Que experiência foi essa! Saí do carro pensando que os pilotos da época eram completamente malucos. Mas, ao mesmo tempo, me fez entender o porquê havia tanto respeito entre os pilotos. Eles sabiam dos perigos e precisavam desvendar o limite do carro para que não fossem surpreendidos. Era um tipo diferente de talento.”

No entanto, Jacques Villeneuve admite que a imagem que tem de Gilles Villeneuve não é somente a do piloto lendário.

“Lembro dele como meu pai. O automobilismo é secundário, era algo que ele adorava fazer. Ele conseguiu um lugar no coração das pessoas, que não o respeitavam somente como piloto, mas também como pessoa. Sua carreira foi interrompida, mas era questão de tempo para que ele se tornasse campeão.”


Fonte: Tazio 

Eu me emociono ao ler isto porque vivi de pertinho (na medida do possível, é claro) toda estas comparações, pressões e moções que Jacques comentou no texto acima. 

Lembro perfeitamente quando ele foi campeão em 97, que na coletiva perguntaram a ele sobre como seu pai estaria se sentindo vendo o filho campeão do mundo. Jacques respondeu como qualquer um de nós teria respondido: "Ele estaria feliz."

E imagino mesmo que as lembranças mais lindas e marcantes de Gilles para Jacques tem relação com seu pai o homem, e não o piloto (embora, é lcaro, na pista, ele tenha sido inesquecível). 

Jacques é filho antes de ser torcedor, via Gilles de uma forma que nós não tínhamos acesso (embora, Gilles parecesse por tudo o que temos conhecimento, um cara muito simples) e o orgulho que ele sente do pai, definitivamente, sempre foi muito grande.

Muito bacana esta matéria. :)

Beijinhos, Ludy

Comentários

wagner disse…
Belo texto, Ludy! A primeira foto é magnífica!!!

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